Recentemente, a comunidade de criptomoedas tem-se concentrado numa questão confusa: a presença de conteúdo proibido relacionado com pornografia infantil codificado na blockchain do Bitcoin. A questão não é apenas técnica – ela tem implicações legais para as pessoas que operam um nó completo do Bitcoin.
A controvérsia começou quando o desenvolvedor do Ethereum, Vlad Zamfir, publicou uma sondagem no Twitter contendo uma questão poderosa: “Pararias de operar o teu nó completo se soubesses que há pornografia infantil codificada na blockchain?” A sondagem obteve 2.300 respostas, e o resultado mostrou que apenas 85 por cento estavam dispostos a parar.
O que realmente se encontra na Blockchain?
Um estudo da RWTH Aachen University revelou resultados perturbadores: descobriram uma imagem gráfica e 274 links para conteúdo que descreve abuso infantil armazenado na blockchain do Bitcoin. Mas é importante entender exatamente como isso está lá.
Pornografia infantil e outros conteúdos proibidos não aparecem como ficheiros ou vídeos prontos para download que possam surgir de repente no teu computador. Em vez disso, o conteúdo ofensivo está codificado e armazenado na forma de links criptográficos e cadeias de texto aleatórias, misturadas com outros dados nas transações. Para aceder ou reconstruir o conteúdo real, uma pessoa precisa de:
Saber exatamente onde os dados codificados estão localizados
Ter conhecimentos técnicos para decodificá-los
Esforçar-se ativamente para reverter a engenharia dessas informações
Devido à complexidade deste processo, o estudo do Coin Center esclarece: uma cópia da blockchain não contém literalmente as imagens, mas sim cadeias de texto aleatórias que, se alguém souber como decodificá-las, podem ser revertidas à sua forma original.
O caminho legal: SESTA-FOSTA e implicações legais
O surgimento de pornografia infantil na blockchain levanta questões legais sérias, especialmente nos EUA. O quadro legal mais relevante é a SESTA-FOSTA (Stop Enabling Sex Traffickers Act-Allow States and Victims to Fight Online Sex Trafficking Act).
Antes da SESTA-FOSTA, a Secção 230 da Communications Decency Act oferecia proteção aos provedores de serviços de internet (ISP) e outros utilizadores contra responsabilidade pelo conteúdo deixado por terceiros. Mas a SESTA-FOSTA criou novos desafios. O relatório da RWTH Aachen University não se refere diretamente a qualquer país, mas as implicações são particularmente claras nos EUA, onde participar na rede como minerador ou operador de nó pode ser potencialmente ilegal se houver conhecimento de pornografia infantil.
O professor da Cardozo Law School, Aaron Wright, deu uma visão crítica: “Isto faz parte da tensão entre a difícil tarefa de alterar a estrutura de dados, a blockchain, e os requisitos de certas áreas da lei.”
A importância da intenção legal não deve ser subestimada. O professor da Princeton, Arvind Narayanan, tweetou que a resposta da mídia mainstream é “não surpreendentemente superficial.” Ele enfatizou que “A lei não é um algoritmo. O objetivo é uma consideração importante na determinação da legalidade.”
A maioria das leis nos EUA, como Wright aponta, responsabiliza apenas as pessoas se “souberem que possuem” ou criam, vendem, transmitem ou acessam conteúdo “com a intenção de visualizá-lo.” Como a maioria dos utilizadores de Bitcoin não tem ideia de qual dado na blockchain contém pornografia infantil, muitos acreditam que o quadro legal é insípido aqui.
Como outras blockchains enfrentam o mesmo problema
É importante notar que esta questão não é exclusiva do Bitcoin. Quase todas as redes de blockchain permitem que dados sejam adicionados às transações, ou seja, qualquer pessoa com conhecimentos técnicos pode adicionar o mesmo tipo de conteúdo de pornografia infantil a qualquer blockchain de código aberto.
Ethereum, Litecoin e outras criptomoedas têm potencial vulnerabilidade semelhante. O problema não está na tecnologia blockchain em si, mas na incapacidade de qualquer rede descentralizada de controlar completamente qual dado é adicionado.
Soluções em estudo pelos desenvolvedores
À medida que a preocupação aumenta, a comunidade de desenvolvedores procura soluções práticas. O professor da Cornell University, Emin Gun Sirer, explica que o “software de criptomoedas comum” carece de ferramentas necessárias para reconstruir o conteúdo a partir de uma codificação específica.
O desenvolvedor do Bitcoin, Matt Corallo, sugere algumas opções:
Criptografia: Se a existência de dados encriptados for legal, encriptar apenas os dados resolverá o problema para os operadores de nós que não querem ver o conteúdo decodificado
Armazenamento apenas de hash: Os participantes da rede podem optar por armazenar apenas o “hash e efeitos secundários” das transações, em vez de todo o conteúdo
Poda seletiva: Soluções avançadas podem permitir que os utilizadores podam ou não armazenem o conteúdo de transações suspeitas
Mas Corallo enfatiza que é necessário um esclarecimento legal mais claro: “É preciso maior clareza na definição do que é exatamente ilegal antes que os desenvolvedores possam abordar essas questões.”
A comunidade responde: quem é responsável?
A sondagem de Vlad Zamfir oferece uma janela de como a comunidade de criptomoedas pensa sobre o problema. O fato de 85 por cento dizerem que parariam mostra uma elevada consciência ética, mas também levanta a questão: devem eles ter uma obrigação legal de fazê-lo?
Um ponto crítico: se um operador de nó ou minerador adicionar pessoalmente ou souber que outros estão adicionando pornografia infantil na blockchain, eles têm a obrigação legal de alertar as autoridades. Mas a natureza pseudónima do Bitcoin torna muito difícil rastrear e desanonimizar atores maliciosos.
Wright sugere uma solução: “Se você registra essa informação numa blockchain, muitas vezes tem um registo de quem a carregou. Como questões relacionadas com evasão fiscal ou financiamento do terrorismo, pode-se minerar através da blockchain e tentar desanonimizar quem fez o upload.”
O estudo maior
O desafio da pornografia infantil no Bitcoin faz parte de uma tensão maior entre a estrutura descentralizada e a necessidade de legislação. Na Europa, o problema também pode surgir na questão do direito ao esquecimento. Nos EUA, está emergindo em várias leis relacionadas com conteúdo sexual.
Mas uma coisa é clara: à medida que a adoção de criptomoedas cresce, as questões sobre pornografia infantil e outros conteúdos proibidos na blockchain não desaparecerão. A solução exigirá colaboração entre desenvolvedores, especialistas jurídicos e forças de segurança para encontrar um equilíbrio entre os princípios de descentralização e a proteção de grupos vulneráveis.
Uma blockchain provavelmente não é um bom lugar para armazenar informações indecentes ou obscenas relacionadas com pornografia infantil – mas, enquanto a tecnologia permanecer aberta e imutável, este desafio continuará a persistir até que a comunidade encontre respostas práticas e legais.
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O Desafio do Pornografia Infantil na Blockchain do Bitcoin: Questões Legais e Técnicas
Recentemente, a comunidade de criptomoedas tem-se concentrado numa questão confusa: a presença de conteúdo proibido relacionado com pornografia infantil codificado na blockchain do Bitcoin. A questão não é apenas técnica – ela tem implicações legais para as pessoas que operam um nó completo do Bitcoin.
A controvérsia começou quando o desenvolvedor do Ethereum, Vlad Zamfir, publicou uma sondagem no Twitter contendo uma questão poderosa: “Pararias de operar o teu nó completo se soubesses que há pornografia infantil codificada na blockchain?” A sondagem obteve 2.300 respostas, e o resultado mostrou que apenas 85 por cento estavam dispostos a parar.
O que realmente se encontra na Blockchain?
Um estudo da RWTH Aachen University revelou resultados perturbadores: descobriram uma imagem gráfica e 274 links para conteúdo que descreve abuso infantil armazenado na blockchain do Bitcoin. Mas é importante entender exatamente como isso está lá.
Pornografia infantil e outros conteúdos proibidos não aparecem como ficheiros ou vídeos prontos para download que possam surgir de repente no teu computador. Em vez disso, o conteúdo ofensivo está codificado e armazenado na forma de links criptográficos e cadeias de texto aleatórias, misturadas com outros dados nas transações. Para aceder ou reconstruir o conteúdo real, uma pessoa precisa de:
Devido à complexidade deste processo, o estudo do Coin Center esclarece: uma cópia da blockchain não contém literalmente as imagens, mas sim cadeias de texto aleatórias que, se alguém souber como decodificá-las, podem ser revertidas à sua forma original.
O caminho legal: SESTA-FOSTA e implicações legais
O surgimento de pornografia infantil na blockchain levanta questões legais sérias, especialmente nos EUA. O quadro legal mais relevante é a SESTA-FOSTA (Stop Enabling Sex Traffickers Act-Allow States and Victims to Fight Online Sex Trafficking Act).
Antes da SESTA-FOSTA, a Secção 230 da Communications Decency Act oferecia proteção aos provedores de serviços de internet (ISP) e outros utilizadores contra responsabilidade pelo conteúdo deixado por terceiros. Mas a SESTA-FOSTA criou novos desafios. O relatório da RWTH Aachen University não se refere diretamente a qualquer país, mas as implicações são particularmente claras nos EUA, onde participar na rede como minerador ou operador de nó pode ser potencialmente ilegal se houver conhecimento de pornografia infantil.
O professor da Cardozo Law School, Aaron Wright, deu uma visão crítica: “Isto faz parte da tensão entre a difícil tarefa de alterar a estrutura de dados, a blockchain, e os requisitos de certas áreas da lei.”
A importância da intenção legal não deve ser subestimada. O professor da Princeton, Arvind Narayanan, tweetou que a resposta da mídia mainstream é “não surpreendentemente superficial.” Ele enfatizou que “A lei não é um algoritmo. O objetivo é uma consideração importante na determinação da legalidade.”
A maioria das leis nos EUA, como Wright aponta, responsabiliza apenas as pessoas se “souberem que possuem” ou criam, vendem, transmitem ou acessam conteúdo “com a intenção de visualizá-lo.” Como a maioria dos utilizadores de Bitcoin não tem ideia de qual dado na blockchain contém pornografia infantil, muitos acreditam que o quadro legal é insípido aqui.
Como outras blockchains enfrentam o mesmo problema
É importante notar que esta questão não é exclusiva do Bitcoin. Quase todas as redes de blockchain permitem que dados sejam adicionados às transações, ou seja, qualquer pessoa com conhecimentos técnicos pode adicionar o mesmo tipo de conteúdo de pornografia infantil a qualquer blockchain de código aberto.
Ethereum, Litecoin e outras criptomoedas têm potencial vulnerabilidade semelhante. O problema não está na tecnologia blockchain em si, mas na incapacidade de qualquer rede descentralizada de controlar completamente qual dado é adicionado.
Soluções em estudo pelos desenvolvedores
À medida que a preocupação aumenta, a comunidade de desenvolvedores procura soluções práticas. O professor da Cornell University, Emin Gun Sirer, explica que o “software de criptomoedas comum” carece de ferramentas necessárias para reconstruir o conteúdo a partir de uma codificação específica.
O desenvolvedor do Bitcoin, Matt Corallo, sugere algumas opções:
Criptografia: Se a existência de dados encriptados for legal, encriptar apenas os dados resolverá o problema para os operadores de nós que não querem ver o conteúdo decodificado
Armazenamento apenas de hash: Os participantes da rede podem optar por armazenar apenas o “hash e efeitos secundários” das transações, em vez de todo o conteúdo
Poda seletiva: Soluções avançadas podem permitir que os utilizadores podam ou não armazenem o conteúdo de transações suspeitas
Mas Corallo enfatiza que é necessário um esclarecimento legal mais claro: “É preciso maior clareza na definição do que é exatamente ilegal antes que os desenvolvedores possam abordar essas questões.”
A comunidade responde: quem é responsável?
A sondagem de Vlad Zamfir oferece uma janela de como a comunidade de criptomoedas pensa sobre o problema. O fato de 85 por cento dizerem que parariam mostra uma elevada consciência ética, mas também levanta a questão: devem eles ter uma obrigação legal de fazê-lo?
Um ponto crítico: se um operador de nó ou minerador adicionar pessoalmente ou souber que outros estão adicionando pornografia infantil na blockchain, eles têm a obrigação legal de alertar as autoridades. Mas a natureza pseudónima do Bitcoin torna muito difícil rastrear e desanonimizar atores maliciosos.
Wright sugere uma solução: “Se você registra essa informação numa blockchain, muitas vezes tem um registo de quem a carregou. Como questões relacionadas com evasão fiscal ou financiamento do terrorismo, pode-se minerar através da blockchain e tentar desanonimizar quem fez o upload.”
O estudo maior
O desafio da pornografia infantil no Bitcoin faz parte de uma tensão maior entre a estrutura descentralizada e a necessidade de legislação. Na Europa, o problema também pode surgir na questão do direito ao esquecimento. Nos EUA, está emergindo em várias leis relacionadas com conteúdo sexual.
Mas uma coisa é clara: à medida que a adoção de criptomoedas cresce, as questões sobre pornografia infantil e outros conteúdos proibidos na blockchain não desaparecerão. A solução exigirá colaboração entre desenvolvedores, especialistas jurídicos e forças de segurança para encontrar um equilíbrio entre os princípios de descentralização e a proteção de grupos vulneráveis.
Uma blockchain provavelmente não é um bom lugar para armazenar informações indecentes ou obscenas relacionadas com pornografia infantil – mas, enquanto a tecnologia permanecer aberta e imutável, este desafio continuará a persistir até que a comunidade encontre respostas práticas e legais.