
Uma Special Purpose Acquisition Company (SPAC) é uma “empresa de propósito específico” listada em bolsa, criada exclusivamente para captar recursos no mercado de ações com o objetivo de adquirir ou se fundir a uma empresa privada. A SPAC não possui operações comerciais próprias; sua finalidade é captar fundos e realizar a fusão com uma empresa-alvo, permitindo que esta acesse o mercado acionário por meio desse caminho alternativo.
O funcionamento das SPACs se assemelha à ideia de “comprar o veículo antes de buscar os passageiros”. Os investidores aportam capital durante a oferta pública inicial (IPO) da SPAC, com os valores mantidos em uma conta fiduciária regulamentada. A equipe de gestão—os sponsors—tem um prazo definido para identificar uma empresa-alvo, negociar os termos e submeter a proposta para aprovação dos acionistas. Se a fusão for aprovada, a empresa-alvo passa pelo processo de “de-SPAC” e se torna uma companhia de capital aberto. Caso o processo não seja concluído, os recursos captados costumam ser devolvidos aos investidores, conforme previsto.
O ciclo de uma SPAC envolve: captação de recursos, custódia, busca por empresa-alvo, votação dos acionistas, fusão ou devolução do capital. Os pilares são o capital em conta fiduciária e o direito de resgate dos investidores.
IPO da SPAC: A SPAC realiza uma oferta pública inicial, emitindo ações ao público. O objetivo não é operar um negócio, mas levantar recursos para uma futura fusão.
Fundos em custódia: Os valores captados são depositados em uma conta fiduciária—um “cofre seguro” regulamentado, normalmente investido em ativos de baixo risco—para proteger o capital dos investidores.
Busca por empresa-alvo: Os sponsors buscam potenciais empresas para aquisição dentro do setor de interesse, negociam avaliações e termos, e divulgam as informações ao mercado.
Votação dos acionistas e resgate: Os investidores votam para aprovar ou rejeitar a fusão e podem exercer o direito de resgatar suas ações por um valor acordado caso discordem do negócio.
Fusão De-SPAC: Com a aprovação, a empresa-alvo se funde à SPAC e assume novo nome. A empresa combinada passa a ser negociada sob um novo ticker.
Liquidação em caso de insucesso: Se não houver empresa-alvo adequada ou os acionistas rejeitarem a fusão no prazo definido, a SPAC é liquidada e o capital retorna aos investidores.
As principais diferenças estão no processo e nos direitos dos investidores. Em um IPO tradicional, a empresa solicita diretamente o registro em bolsa; na SPAC, o capital é captado primeiro e, depois, utilizado para adquirir uma empresa privada, garantindo direitos de resgate aos investidores em etapas estratégicas.
SPACs podem acelerar o processo de abertura de capital e aumentar a previsibilidade ao negociar avaliação e condições previamente. As exigências de divulgação são diferentes—SPACs devem divulgar os termos da fusão, mas podem fazê-lo em cronograma distinto dos IPOs tradicionais. Investidores de SPACs geralmente contam com direitos de resgate e warrants, o que pode gerar diluição. Em IPOs tradicionais, o preço é determinado por underwriters e demanda de mercado; em SPACs, a avaliação segue lógica de negociação de M&A.
SPACs oferecem às empresas Web3 uma alternativa para acessar o mercado de capitais, especialmente para aquelas que desejam aproveitar oportunidades de mercado ou alinhar captação e abertura de capital. Embora as SPACs possam reduzir barreiras em períodos voláteis em relação ao IPO direto, também trazem desafios como altas taxas de resgate e diluição.
Nos últimos anos, várias empresas de cripto ou blockchain recorreram ao modelo SPAC. Por exemplo, a Bakkt abriu capital via SPAC em 2021; a Circle, emissora de stablecoin, anunciou fusão com a SPAC da Concord Acquisition (posteriormente cancelada em 2022); a Core Scientific, mineradora, também realizou fusão via SPAC seguida de reestruturação. Esses exemplos mostram que, embora as SPACs abram portas para o mercado de capitais, a qualidade dos negócios, ciclos de mercado e mudanças regulatórias afetam significativamente os resultados.
Para investidores em cripto, uma SPAC é um veículo do mercado de ações, distinto de tokens. Ao acompanhar notícias da Gate ou dados de mercado, é possível monitorar empresas de mineração, pagamentos ou serviços blockchain que abrem capital via SPAC para avaliar possíveis correlações de sentimento com o setor cripto. No entanto, negociar essas ações exige conta em corretora autorizada e requer gestão independente de riscos.
Os principais riscos envolvem altas taxas de resgate que drenam recursos, diluição causada por warrants e incentivos dos sponsors, fusões fracassadas que levam à liquidação, incertezas regulatórias e riscos relacionados à avaliação e entrega de resultados.
O risco de resgate ocorre porque, mesmo com a conclusão do negócio, resgates elevados podem deixar a empresa combinada com caixa insuficiente para expansão ou P&D. O risco de diluição decorre de warrants e “acordos de participação” dos sponsors, que reduzem a participação dos acionistas e o valor por ação. O risco de liquidação aparece se não houver alvo adequado ou os acionistas rejeitarem a fusão—os fundos são devolvidos, mas há custo de oportunidade. O aumento das exigências regulatórias pode impactar requisitos de divulgação, accountability e prazos. Embora as contas fiduciárias protejam o principal do investidor antes da fusão, não há garantia sobre o preço das ações ou desempenho do negócio após a fusão.
A atividade das SPACs atingiu o pico em 2020–2021, mas arrefeceu diante de regulações mais rígidas e alta dos juros. Até o 3º trimestre de 2024, novas estruturas e volumes de captação seguem contidos, enquanto as taxas de resgate permanecem elevadas. As operações têm priorizado empresas com fluxo de caixa real e rentabilidade comprovada (fonte: SPACInsider, 3º tri de 2024).
No âmbito regulatório, autoridades dos EUA reforçaram regras de divulgação e accountability para SPACs no 1º trimestre de 2024—elevando transparência, padrões de diligência e qualidade das operações. Fatores macroeconômicos como juros e apetite a risco seguem determinando o fluxo de negócios, com investidores priorizando alvos geradores de caixa e focados em lucro.
Uma Special Purpose Acquisition Company é um instrumento do mercado de capitais do tipo “lista primeiro, adquire depois”, baseado em fundos em custódia e direitos de resgate dos investidores. Em relação aos IPOs tradicionais, oferece processos e mecanismos de precificação distintos—podendo aumentar a eficiência do registro para algumas empresas, mas trazendo riscos como resgates, diluição e exigências regulatórias. Para empresas Web3, as SPACs são uma opção alternativa, não uma solução universal; para investidores, a diligência rigorosa sobre qualidade do negócio, condições financeiras e impacto de diluição—além de estratégias disciplinadas e segregação de recursos—é fundamental para gestão eficaz de riscos.
A volatilidade das ações de SPAC depende principalmente das expectativas em relação ao alvo da fusão e do sentimento de mercado. Antes do anúncio da fusão, os preços tendem a permanecer estáveis; após a divulgação do negócio, o otimismo sobre as perspectivas do alvo pode elevar os preços—ou reduzi-los se o sentimento for negativo. Fatores como taxas de resgate e postura de investidores institucionais também influenciam os movimentos. É recomendável acompanhar comunicados oficiais e tendências de mercado.
O direito de resgate permite ao investidor retirar seu capital pelo valor de face antes da conclusão da fusão—um mecanismo de proteção exclusivo das SPACs. Caso não tenha confiança na empresa-alvo, é possível resgatar as ações e proteger o capital; porém, resgates em massa diluem o retorno dos demais acionistas. O investidor deve ponderar entre manter ou resgatar antes da fusão, conforme seu perfil de risco.
Com a conclusão da fusão, a SPAC se transforma na empresa-alvo—o investidor passa a deter ações desse negócio. Ele pode se beneficiar da valorização pós-fusão, mas também assume riscos operacionais. Pode haver diluição acionária devido à emissão de novas ações; o retorno final depende do desempenho da empresa e da avaliação de mercado após o fechamento.
Empresas Web3 costumam optar por SPACs por oferecerem prazos mais curtos, menor rigor regulatório e custos reduzidos em comparação aos IPOs tradicionais. O IPO convencional exige longos processos de análise e divulgação; já a maioria das fusões via SPAC é concluída em 6 a 12 meses, com processos mais ágeis—o que atrai projetos inovadores ou sensíveis à regulação que buscam acesso rápido ao capital público.
As principais opções são vender as ações no mercado secundário (mais flexível), manter os papéis após a fusão ou vender após a conclusão, ou exercer o direito de resgate antes da fusão (preservando o capital). Cada alternativa se adapta a diferentes cenários de mercado e perfis de risco—investidores de longo prazo podem manter as ações, enquanto perfis de curto prazo ou mais conservadores podem optar por vender ou resgatar antes do fechamento.


